“Se a gente não quiser se envolver, vai ficar sempre o mais do mesmo”

A vereadora eleita Celina Manfroi Cassiano Barros falou sobre suas posições frente o Legislativo a partir de 2021

Por Redação em Política

21/11/2020 17:35

“Se a gente não quiser se envolver, vai ficar sempre o mais do mesmo”

Celina Manfroi Cassiano Barros (PSD) foi eleita vereadora com a melhor votação desde 1982, de acordo com o Sistema de Histórico das Votações da Justiça Eleitoral. Foram 1.746 votos, o que representa 9,11% do eleitorado que compareceu pra votar em vereador em Campos Novos. Antes, a marca histórica pertencia ao vereador Dirceu Kaipper (MDB), em 2012, com 1.684 votos, representando 8,5% do eleitorado. De 1982 pra cá, será a terceira mulher a assumir uma cadeira no legislativo camponovense, depois de Terezinha Ribeiro (PMBD), em 1982 e Marisa Leite Fernandes (PFL) em 1992 e 1996.

Ela tem 31 anos, casada com Danilo Barros, engenheiro de computação. Formada em Direito pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, no Paraná, retornou a Campos Novos em 2014. Sua primeira experiência na vida pública foi como Secretária de Assistência Social, Trabalho e Emprego na atual administração, de 2017 a 2020, se desligando apenas para concorrer a vaga de vereadora. Com indicação de amigos de infância que trabalham na atual gestão, foi convidada pessoalmente pelo prefeito Silvio Alexandre Zancanaro para exercer o cargo.

Nesta entrevista exclusiva ao Folha Independente ela esclareceu suas posições e como pretende trabalhar, de forma independente e técnica, nos ditames da lei. Defendeu a superação das discordâncias político-partidárias em Campos Novos com diálogo e defendendo que os vereadores precisam trabalhar para todos. Confira:   

A senhora foi a mais votada em Campos Novos, esperava todo esse desempenho?
Trabalhei no sentido de conversar com o maior número de pessoas que eu podia e sentimos nessa campanha que as pessoas queriam uma renovação política, um Legislativo mais atuante, que representasse mais o interesse das pessoas e que trouxesse à tona a discussão de temáticas importantes. Na minha visão, a primeira coisa é utilizar aquele espaço democrático para fomentar e instigar que as pessoas saibam dos seus direitos. Foi esse o resumo da caminhada que eu fiz. Muitas pessoas falaram das suas necessidades, do que seria legal em Campos Novos e respondi que talvez a lei não permitisse ou que não seria atribuição do vereador. Falando a verdade, eu corria o risco de perder votos. Mas eu preferi esclarecer, do que prometer coisas que eu não podia cumprir e a caminhada foi tomando corpo. Essa votação só foi possível porque pessoas voluntárias se envolveram na minha campanha. Eu tive o envolvimento total da minha família, o envolvimento de muitos amigos, das famílias, dos meus colegas da Secretaria do Social e de pessoas que eu nem imaginava. As pessoas acreditavam porque conheciam a maneira como eu trabalhava. Não prometi nada pra ninguém, as pessoas que me ajudaram foram voluntárias e que multiplicaram para outras. Vou fazer o meu melhor para honrar essa responsabilidade, sabendo que a partir de agora o trabalho é para todos. O que eu tirei dessa campanha foi muito aprendizado pessoal, problemáticas que eu não conhecia. Peço que as pessoas continuem comigo trabalhando junto, que tragam projetos, ideias e soluções, porque a cidade é construída por todos, não é só pelo prefeito, um vice e nove vereadores.

O que pretende como vereadora? Tendo em vista as atribuições do cargo público, por que resolveu se candidatar?
Eu que me convidei. Foram várias conversas e eu expus no final de 2019 o interesse em participar do pleito eleitoral e depois o prefeito oficializou o convite. A política promove mudanças na vida de muitas pessoas e se as pessoas que acreditam que podem auxiliar nessa promoção de mudanças não se dispõe, nós teremos talvez, pessoas não tão vocacionadas para esse propósito. E outra coisa é acreditar que você vai fazer o teu melhor. Não é que eu quero ser melhor que ninguém. Todo mundo que está lá faz o seu melhor. Mas eu acredito e tenho certeza que eu vou dar o meu melhor pra fazer frente a essa responsabilidade que as pessoas me confiaram. Agora o trabalho é para todos, independente de quem votou em A ou B. Precisamos buscar a união da cidade e inclusive dos partidos. Isso não é ilusão, vimos essa união agora nessas eleições. Tive votos de famílias historicamente do MDB, que votaram na majoritária deles, mas que acreditaram nas minhas ideias. No social nunca trabalhei de maneira partidária. Pelo contrário, sempre foi em prol do interesse de todos, cumprindo a legislação.

Quais suas principais bandeiras no Legislativo a partir de 2021?
A primeira questão é a representação das mulheres. Trazer o fomento a participação das mulheres na política e em outros contextos. Apesar da nossa cidade ter evoluído muito, ainda temos muitas barreiras a serem rompidas. A questão do acesso ao mercado de trabalho, temos muito mais vagas para homens do que para mulheres, sendo que existem muitas vagas que acabam não sendo acessíveis a elas. Precisamos fazer um trabalho junto as empresas, junto ao comércio nesse sentido, porque existe um preconceito em receber uma mulher em determinada vaga. A mulher está à disposição e precisa sustentar os filhos, sua casa, precisa crescer e prosperar, estudar, mas pra isso, ela precisa de oportunidades. A proteção à mulher gestante, dos cuidados com relação aos filhos. Iluminação pública por exemplo, envolve uma política para as mulheres, porque as mulheres têm medo de andar numa rua escura. A questão de vagas de acesso ao ensino infantil. A criação de uma procuradoria especial da mulher, onde funcionaria como uma ponte entre o serviço público e a mulher. Por exemplo, a mulher foi vítima de violência, talvez ela não saiba aonde procurar ajuda. Ela receberia acolhimento e encaminhamento. É isso hoje o que a maioria das pessoas estão precisando, de pessoas que escutem, orientem e as empodere sobre seus direitos. Não é pegar a pessoa pela mão, mas explicar o caminho e saber que o serviço público é um direito dela, não um favor do agente político. De outro lado, o cidadão precisa ser consciente que o servidor público também está cumprindo tarefas e deveres, que existe um protocolo, que existe um passo-a-passo, que existem regras. O vereador chega com um cidadão para acessar determinado serviço, o servidor precisa seguir a mesma regra que seguiria para todas as pessoas. Isso que precisamos trabalhar mais na nossa cidade: que as pessoas saibam mais os seus direitos e dos seus deveres enquanto cidadão. Porque quando você marca uma consulta e não vai, alguém deixou de ter acesso a essa consulta. Penso que é por isso que eu fui eleita, porque as pessoas acreditaram que precisaria ter alguém para fomentar e estimular o cumprimento da legislação, para esclarecer as pessoas sobre os direitos delas, para orientá-las e empoderá-las. O vereador não está para fazer favor para as pessoas, está para garantir os direitos delas.

Você já recebeu críticas enquanto secretária sobre o funcionamento dos serviços do social. O serviço público hoje está preparado para atender a demanda das pessoas?
Entendo que sim, mas ainda temos que aperfeiçoar alguns. Eles precisam estar em constante aperfeiçoamento até porque a nossa cidade está em constante crescimento. Uma das funções do vereador é fiscalizar, também uma das funções que a imprensa realiza. Acredito que temos um município com uma vasta prestação de serviços públicos e bons serviços comparativamente a outros municípios, especialmente quanto à política de assistência social, uma política pública que eu tenho mais confiança pra falar. Alguns que claro precisam melhorar. Agendei uma conversa com o pessoal da saúde porque eu quero entender o SUS. Precisamos ter o conhecimento para explicar para as pessoas e para cobrar. Por exemplo, uma cirurgia que demora dois anos, não está garantindo o direito à saúde de ninguém, no entanto, talvez não seja atribuição do município, então o que podemos fazer para reduzir esse tempo. Quem sabe fazer uma cobrança junto aos deputados, propor a união entre os municípios. Parece muito ideológico, mas se não acreditarmos que pode ser feito, se a gente não quiser se envolver, vai ficar sempre o mais do mesmo.

Falando do papel do vereador em fiscalizar as ações do Poder Executivo, como pretende desempenhar esse papel, já que foi a apoiada por praticamente todos os cargos de alto escalão do Executivo e deverá ser a porta voz do prefeito na Câmara?
Fico bem à vontade para falar sobre isso, porque enquanto eu era cargo de confiança do Zancanaro eu já tinha essa possibilidade. Ele sabe que enquanto eu estive na Secretaria, sempre tive liberdade para falar das coisas que eu acreditava ou não. Enquanto gestora da política de assistência social eu só iria trabalhar dentro das formas que eu acreditasse e dentro das propostas que claro, ele tinha se comprometido com a comunidade, com liberdade de atuação. Me sinto à vontade nessa função de fiscalização, porque as pessoas acreditaram em mim como um ser independente. Precisamos na Câmara, agilizar os processos de tramitação quando recebemos uma proposta de legislação e se talvez não seja condizente com a realidade, ou com o que a maioria das pessoas pensam ou de alguma forma venham afrontar uma legislação, ou você dá uma outra alternativa ou você agiliza para quê esse projeto tenha um trâmite rápido, pois ninguém gosta de esperar uma resposta. Eu penso que nenhum gestor manda um projeto pensando que é ruim para a cidade, pelo contrário, acredito que ele sempre manda pensando no que é melhor. Só que temos que deixar de lado um pouco essas jogadas político partidárias porque quem me conhece, sabe que eu não trabalho assim, então para mim é muito tranquilo. Sei que existe a política partidária, isso é normal numa cidade, mas estou animada pra trabalhar, respeitando as pessoas e a história política de cada um. Se as pessoas elegeram os seus representantes elas querem um pouquinho de cada um e pretendo buscar nessas pessoas que têm mais experiência na política, pois com certeza elas terão muita coisa a me ensinar então estarei aberta para ouvir e aprender.

Então você teria coragem de votar contra um projeto do Zancanaro?
Claro que eu teria coragem, pois fui eleita para representar as pessoas. Mas vejo que temos que buscar alternativa para as situações, não é simplesmente sou contra porque sou contra. Isso atrasa o município, prejudica a realidade. O que as pessoas querem é rapidez e o município também sofre com uma lei parada na Câmara. Se o município deu alguma solução que talvez não seja a melhor, então que os vereadores apresentem uma outra ideia. A proposta é de união. Precisamos olhar pela perspectiva de que acabamos o pleito eleitoral. Os eleitos foram eleitos para trabalhar para todos, independente do partido para que as discussões sejam positivas.

A senhora como ex-secretária do social, sua única experiência na vida pública, pretende incentivar ações nessa área? 
Sim com certeza. A política da assistência social, o desenvolvimento rural porque toda a minha família tem esse vínculo com o interior e morei até os 12 anos no sítio. Também quero trazer a pauta da inclusão das pessoas com deficiência. Toda minha campanha teve recursos para leitura das pessoas com deficiência. Uma pessoa me fez pensar na campanha, quando um surdo tem uma dor, como ele vai explicar pro médico se ninguém no posto entende? A gente não para pra pensar nisso. Não tem como o município ser bom para todo mundo se ele não for bom para cada um. Se fala muito da acessibilidade urbana, mas o mais importante é dar acesso aos serviços públicos. Isso é uma coisa urgente e necessária que precisa ser pensada para ontem. Claro que são propostas, quem executa é o Executivo, mas a ideia é de incentivar e fazer propostas viáveis. Não adianta criar coisas mirabolantes que depois não são executáveis. Uma das ideias é que o município ofereça entre os cursos de progressão na carreira, o modulo inicial de libras. Todos os servidores precisam fazer e querem fazer pra progredir na carreira. Então aqueles servidores que quiserem ser intérpretes em seus setores, ganhariam uma gratificação específica. O custo para o município é mínimo e o ganho para a pessoa é maravilhoso. Seria um estímulo a mais para o servidor público, e uma garantia a mais de direitos para as pessoas. Também disponibilizar cursos para os comerciantes sobre comunicação alternativa que é uma maneira de comunicação que as pessoas com deficiência usam. Pensar em parques e praças com brinquedos para as crianças com deficiência.

Já se fala na cidade, um projeto longo do PSD no poder, com Gilmar Marco como prefeito e a senhora como vice em 2024. Se for oficializado, você gostaria de estar no Executivo? Isso vem de encontro ao seu desejo pessoal?
Fui eleita para ser vereadora e serei vereadora. Não posso pensar nisso agora, pois não seria justo com as pessoas diante dessa votação. É claro que não descarto, mas depende também da forma de como será formatado, porque tenho o meu jeito de ser, tudo teria que fechar com minha forma de trabalhar. Sabendo que agora já é uma responsabilidade muito grande diante dessa votação, a responsabilidade que assumi com projetos que eu acredito que dão pra tirar do papel, inclusive alguns que podem ser aplicados diretamente no Legislativo. Não quero dar um passo maior que a perna.

Já está pensando na sua nova rotina a partir de 2021? Muitas pessoas falam que o vereador só aparece em tempo de campanha...
Compartilho de um projeto de uma vereadora do Rio Grande do Sul. Cada dia da semana, uma atividade relacionada as atividades de vereador. Um dia para análise de legislação, um dia para receber pessoas no gabinete, um dia de visitas, um dia pra fiscalizar os serviços públicos, então divulgar essa agenda para que as pessoas saibam que todos os dias vai ser assim, não só visitas nas festas de comunidade. No mais as pessoas querem ser ouvidas e ter um retorno de suas demandas. Para entender a vivência e o sofrimento das pessoas você tem que estar aberto para ouvir.

Quanto a presidência da Câmara, pretende entrar na disputa para presidir a casa? 
Sim, com certeza.

Sobre os privilégios dos vereadores, como carro oficial, telefone oficial, diárias, você pretende utilizar?
O telefone vou usar o meu mesmo. Temos que fazer uma regulamentação do uso de diárias, na minha visão tem que ter um limite, tantas vezes no ano. Seria uma forma de guarnecer o direito, porque existe essa necessidade de contato pessoal com deputados para conseguir recursos para o município. Hoje o digital funciona bem, podemos utilizar também. Quanto ao carro oficial, acho que se a atividade estiver ligada a função legislativa, pode ser usado sem problema. Pretendo fazer um trabalho de aproximação nos próximos dias com o Poder Legislativo. Pra mim é muito novo essas conversas políticas, sempre trabalhei de maneira muito técnica. Vou ouvir mais que falar e ver como os processos acontecem, entender os anseios dos demais vereadores, o que eu posso garantir, é que tenho liberdade pra fazer da maneira que eu acredito ser a certa.

Foi falado na campanha, que os recursos previstos no orçamento do social não foram totalmente usados. Já que existia orçamento, porque a opção de não gastar quase R$ 4,5 milhões em projetos nessa área que atende as pessoas mais carentes?
Tinha toda uma estratégia de trabalho junto a gestão municipal, que não era só a Secretaria de Assistência Social. Inclusive muitos investimentos na área, foram possíveis porque houve economia de recurso público em custeio. Optei por usar em investimentos, como por exemplo, o Centro de Apoio Comunitário e o Centro de Convivência dos Idosos. Fizemos execução de recursos federais e estadual. O resultado que tivemos nas eleições demonstrou que as pessoas ficaram satisfeitas com o trabalho dentro da política de assistência social, mas claro que gostaria de ter feito mais coisas.

 

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