O que é o autismo?

Por Cléia Malcorra de Almeida, Psicóloga, integrante da equipe da AMA Campos Novos

Por Redação em Vozes

03/04/2020 16:37

"Todos os pacientes com autismo partilham dificuldades com intensidades diferentes"

O autismo é um transtorno do desenvolvimento que embora muito abrangente, afeta de forma mais evidente as áreas da interação social, da comunicação e do comportamento. Pode ser acompanhado também de outras manifestações inespecíficas como fobias, crises de birra e agressividade, pertubações no sono e na alimentação.

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais DSM-5 (referência mundial de critérios para diagnósticos), pessoas dentro do espectro podem apresentar déficit na comunicação social ou interação social (como nas linguagens verbal ou não-verbal e na reciprocidade sócio emocional) e padrões restritos e repetitivos de comportamento, como movimentos contínuos, interesses fixos e hipo ou hipersensibilidade a estímulos sensoriais.

Todos os pacientes com autismo partilham estas dificuldades, mas cada um deles será afetado em intensidades diferentes, resultando em situações bem particulares. Apesar de ainda ser chamado de autismo infantil, pelo diagnóstico ser comum em crianças e até bebês, os transtornos são condições permanentes que acompanham a pessoa por todas as etapas da vida.

SINAIS DE ALERTA

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) afeta o comportamento do indivíduo, e os primeiros sinais podem ser notados em bebês de poucos meses. No geral podem apresentar alguns dos seguintes sintomas:

NA INTERAÇÃO SOCIAL tem diminuição no uso do contato ocular, não fixa o olhar e quando fixa tem a tendência de logo desviar, não manifesta interesse pelas pessoas, dificilmente faz manifestações de carinho, outras vezes não recebe bem o carinho de outrem ou ainda pode manifestar carinho com compulsividade, chegando a ser agressivo com o outro, apresenta interação social pobre ou ausente, tem dificuldade de perceber as emoções e sentimentos do outro, não participa de jogos ou brincadeiras, tem dificuldade para compartilhar interesses realizando atividades geralmente individual.

NA COMUNICAÇÃO tem atraso ou ausência total da fala, se tem fala normal essa pode ser pedante ou monótona com ausência de gestos para facilitar ou enfatizar a compreensão desta, tem dificuldade de iniciar ou manter uma conversa com outras pessoas, compreende literalmente o que ouve, repete o que ouve ou pode falar frases feitas fora de contexto, pouca flexibilidade na expressão da linguagem com falta de criatividade e imaginação assim como podem aprender a ler precocemente independente de ser serem ensinados.

NO COMPORTAMENTO tendem apresentar rigidez de apego a rotinas e rituais podendo mostrar comportamento agressivo ou auto agressivo na quebra dessa rotina, tem intolerância a mudanças no ambiente (ex: troca de um móvel), apego excessivo a determinados objetos (barbantes, chaves, etc.), demonstra ausência de noções de perigo, reações inadequadas a dor, seletividade alimentar exagerada, distúrbios do sono podem estar presentes, estereotipias motoras como movimentos das mãos, braços ou todo corpo, realiza atividades de forma repetitiva podendo executar muitas vezes o mesmo movimento, usa objetos independente de sua função, tem interesse exagerado por movimentos rotatórios, podem ter irritabilidade ou passividade excessivas, podem passar horas chorando sem motivo aparente assim como manifestar alterações na postura corporal podendo andar desajeitadamente ou repetir movimentos estranhos no andar. Em alguns casos mantém interesses específicos com conhecimento intenso sobre determinado assunto ou tema (ex: carros, aviões, extraterrestes, etc), assim como memória visual aprimorada.

PROCESSO DE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais DSM-5 rotula estes distúrbios como um Espectro justamente por se manifestarem em diferentes níveis de intensidade. Uma pessoa diagnosticada com TEA do NIVEL 1 apresenta prejuízos leves, que podem não a impedir de estudar, trabalhar e se relacionar. O diagnóstico do NIVEL 2 tem um menor grau de independência e necessita geralmente de algum auxílio para desempenhar funções cotidianas. Com diagnóstico de NIVEL 3, a criança vai manifestar dificuldades graves e costuma precisar de apoio especializado ao longo da vida.

No diagnóstico se tem também pessoas com habilidades especificas como facilidade para aprender visualmente, muita atenção aos detalhes e à exatidão; com capacidade de memória acima da média e grande concentração em uma área específica durante um longo período de tempo. Cada indivíduo dentro do Espectro vai desenvolver o seu conjunto de sintomas variados e características bastante particulares. Lembramos que o diagnóstico precoce é de extrema importância, pois quanto mais rápida for a estimulação, mais efetivos serão os ganhos no desenvolvimento da criança/adolescente.

O processo de avaliação psicológica de uma criança com suspeita de TEA inclui:

-  Anamnese: entrevista realizada com os pais ou responsáveis sobre o desenvolvimento social, emocional, intelectual e comportamental da criança/adolescente assim como também a investigação da saúde familiar pois o autismo tem alto índice com componente genético;

- Entrevistas com profissionais da área da educação (creche/escola) quando a criança/adolescente frequenta uma instituição de ensino;

- Hora lúdica diagnóstica: é um procedimento técnico de interação que através de observações, brincadeiras e jogos tem como objetivo conhecer e compreender a realidade da criança;

- Aplicação dos instrumentos diagnósticos de escalas MCHAT e CARS com crianças quando tiverem idades entre 16 e 36 meses;

- Aplicação de instrumentos/testes psicológicos com o objetivo de avaliar capacidades motoras, emocionais, intelectuais e comportamentais;                    

- Investigação junto ao médico pediátrico quando se fizer necessário;

- Após toda a investigação é feito um Laudo Psicológico e encaminhado a criança/adolescente ao médico neurologista para se ter o diagnóstico com indicação do nível do Transtorno do Espectro do Autismo. Do Laudo Médico será traçado um programa terapêutico com abordagens comportamentais para um melhor desenvolvimento e adaptação/funcionalidade desta criança/adolescente. Em alguns casos é necessário fazer uso de medicação.

ORIENTAÇÕES AOS PAIS

Dê instruções para seu filho(a) sempre na ordem afirmativa, de maneira positiva e firme. Evite o NÃO, a ordem precisa ser clara para que a criança entenda o que se espera dela e o que ela tem que fazer. Dê ordens e comandos afirmativos e objetivos: lave as mãos, limpe a boca no guardanapo, use a colher ou o garfo, mastigue de boca fechada, penteie o cabelo, escove os dentes, calce o sapato, coloque a blusa, limpe o nariz no lenço, etc.

Rotinas são importantes no cotidiano de nossas crianças pois fazem com que possam saber antecipadamente o que vai acontecer e assim podemos diminuir sua ansiedade e alguns comportamentos não adaptados (birra, choro intenso, agressividade e autoagressão). Antecipar o que vai acontecer dá segurança a criança, evita ansiedade, evita frustrações e oportuniza que melhor se adapte. Devemos falar de forma clara e calma como também usar de instrumentos como fotos, cartões, historias sociais, atividades ou brincadeiras onde a criança possa compreender o que vai acontecer.

Comportamentos de birras, irritação, surtos, estereotipias, autolesões e agressividade podem estar ligados a falta de comunicação ou há algum evento que mudou no ambiente e a criança não sabe explicar o que está sentindo. Pode estar sentindo medo, fome, dor, mal-estar, desconforto em geral, o que lhe causa frustação e como consequência desencadeia os comportamentos não adaptados (disruptivos). Imponha limites, isso ajuda a criança a entender e compreender seus comportamentos. As regras sociais são importantes em todas situações. É importante que todos responsáveis falem e ajam com a mesma coerência.

Brinque com seu filho pois é através de comportamentos de imitação e de forma lúdica que você o estará ajudando no desenvolvimento da criatividade, da imaginação, da interação e da socialização que são uma das maiores dificuldades no transtorno do autismo. Seja carinhoso abrace, beije, brinque no chão, role, diga em forma de atitudes e palavras que você o AMA assim estará proporcionando que seu filho fortaleça a auto estima, a segurança e a confiança em si mesmo.

Desenvolver as habilidades sociais: os pais precisam sair de casa com a criança autista, embora possam acontecerem alguns fatos que irão constrangê-los em certas situações. Poderão se sentir desconfortáveis e com sentimentos de vergonha pois o preconceito ainda existe, mas a única forma ainda é enfrentá-lo.

Com o diagnóstico de autismo, os familiares enfrentam diversas situações de crise, seja pelo medo relacionado ao convívio como também por terem que lidar com o transtorno e as ameaças externas que podem causar ao filho. Esse cenário traz consequências emocionais como ansiedade, angustia, depressão e nesse momento a informação, a união, o diálogo é uma forma da família entender o quão importante é a presença de cada indivíduo como ferramenta de apoio no desenvolvimento da criança autista. É vital a compreensão de todos os ciclos, o entendimento dos pensamentos e atitudes de todos os familiares para que, juntos, possam cuidar de momentos difíceis e vivenciá-los da forma mais natural possível.

Mês de Conscientização do Autismo

 

O que é o autismo?

Cléia Malcorra de Almeida

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