O novo normal

Por Arthur Otto Niebuhr, Servidor da Justiça Eleitoral

Por Redação em Vozes

22/06/2020 10:39

Desde o dia 18 de março, estou em casa. Nas primeiras semanas, susto e quarentena. Aos poucos, as atividades voltaram. Hoje, faço parte do privilegiadíssimo grupo de pessoas que realiza home office; devo continuar assim por um bom tempo, pois também integro o grupo de risco. Como eu disse, privilégio de um servidor público federal, gerido por um Tribunal socialmente responsável.

Nesse período, pude ver as diversas faces da Covid-19. A face da solidariedade, quando as pessoas redescobriram o prazer de fazer o bem, passaram a remunerar as manicures, as cabeleireiras, os jardineiros, mesmo sem contrapartida. A assustadora face da insensatez governamental, através de um Presidente que parece festejar as mortes. A face de gestores municipais e estaduais responsáveis, independentemente de viés ideológico.

A face surpreendente de médicos humanos e dedicados, fazendo valer o juramento de Hipócrates e dando as suas vidas em favor do bem comum. A face generosa das famílias, com as quais nos encontramos depois de muito tempo (no meu caso, particularmente, foi um reencontro terapêutico). A face das maravilhosas tecnologias, que nos conectam com os nossos amores e com as nossas paixões. A face dos nossos artistas queridos, que nos embalam com filmes, músicas, livros.

Perdi alguns queridos, felizmente não muito próximos, mas que farão falta. Perdi Aldir Blanc, Daniel Azulay. Perdi o querido médico Dr. José Rui, responsável pela cirurgia na minha coluna em 1987. Perdemos vizinhos, conhecidos, aquele sujeito do café que vivia falando do Getúlio. Pois é.

Uma frase foi uníssona, desde então: “não seremos os mesmos depois da pandemia”. Entoou-se tal assertiva como um mantra, creio que mais como um desejo do que como uma constatação. Olho para os lados e penso sobre isso. Certamente eu não serei o mesmo, pois, de certa forma, não sou o mesmo a cada dia, já que procuro me reconstruir e me reinventar. Mas não estou tão certo sobre a mudança da humanidade como um todo.

Como diria a minha psicanalista: “a vida é feita de escolhas”. E quais escolhas temos feito, como coletividade? Qual escolha fez o “grupo dos 300”, acampado à margem da História? Qual escolha fez o policial que matou George Floyd? Qual escolha fizeram os sites fascistas? Qual escolha fez o cara que furou o sinal? Qual escolha fez o motorista do tanque de guerra, na Praça da Paz Celestial?

Eu acredito em escolhas. Mas também acredito em amar, perdoar, cantar, crer, incluir, chorar, rir, abraçar, beijar, temer, tremer, gostar, lutar, torcer, perder, vencer. Acredito que jamais devemos nos calar diante do autoritarismo e da opressão. E qual a sua escolha?

 

 

                                              

O novo normal

Arthur Otto Niebuhr é servidor da Justiça Eleitoral em Campos Novos

Folha Independente

Empresa Jornalística
Planalto Sul Ltda. ME

Folha Independente © 2020 Todos os direitos reservados

Desenvolvido por AVB Digital