Coronavírus: Das Intervenções Estatais à Crise Econômica

Por Derick Azevedo, acadêmico do do curso de Economia

Por Redação em Vozes

03/04/2020 16:28

"As políticas monetárias e fiscais são instrumentos usados pelos governos para manipular a economia"

Os movimentos do mercado estão sob forte influência do novo coronavírus (Covid-19), uma doença altamente contagiosa que se iniciou na China. Segundo a Organização Mundial da Saúde, até o momento, ela atingiu mais de 300 mil pessoas em cerca de 176 países.

Essa conjuntura fez com que os governos e os indivíduos adotassem medidas de quarentena, paralisando boa parte das atividades econômicas, com a implementação do home office em alguns casos.

Trabalhadores autônomos, profissionais liberais, empreendedores de pequeno e médio porte são os mais prejudicados, tendo sua receita seriamente comprometida. Com a grande queda na demanda por seus serviços, além de não haver redução dos custos fixos, suas fontes de recursos são rapidamente esgotadas. Muitos ainda enfrentam o iminente perigo de falência em decorrência do possível prolongamento da paralisação. Grandes empresas também não escapam dos efeitos negativos da pandemia. Inclusive, muitas já deram início à redução de suas atividades, promovendo, por exemplo, férias coletivas, cortes em salários de diretores, CEOs e funcionários. A empresa aérea GOL – que já anunciou um corte de aproximadamente 90% em suas atividades e redução das jornadas, bonificações e salários de seus empregados – é um exemplo disso.

Essa conjuntura se reflete nas bolsas de valores. Os principais índices da bolsa americana (Nasdaq, Dow 30 e S&P500) apresentaram quedas históricas, assim como o índice Ibovespa (o principal da bolsa brasileira), que iniciou o ano acima dos 120 mil pontos e até o momento amargura uma queda de aproximadamente 40% no acumulado anual.

Diante desses acontecimentos, e somado às pressões corporativas, inúmeros presidentes e líderes políticos promoverem fortes intervenções na economia por meio de seus bancos centrais. Buscando injetar dinheiro na economia, eles aumentam os subsídios para empresas, compram títulos de dívida, reduzem as taxas de juros e elevam os gastos e o endividamento. Em países com profundas dificuldades fiscais, como o Brasil, isso é um indicativo da proximidade de uma crise econômica mundial.

Para entendermos a conjuntura apresentada e os possíveis resultados, é necessário compreendermos os instrumentos utilizados pelos governos para intervir na economia e qual é relação desses instrumentos com os ciclos econômicos.

Emissão de moeda

As políticas monetárias e fiscais são os principais instrumentos usados pelos governos para manipular a economia e expandir a base monetária. A maneira mais rudimentar e simples é a famosa “impressão de dinheiro”, um aumento direto do volume de dinheiro em circulação.

No Brasil, a CMN (Comissão Monetária Nacional) define a política monetária e, junto com o Banco Central do Brasil, autoriza que a Casa da Moeda emita novas notas que entram diretamente na economia por meio de empréstimos, subsídios ou compras do governo. Em períodos de baixa atividade ou de pouco crescimento econômico, políticos injetam dinheiro com o interesse de criar a falsa sensação de enriquecimento.

À medida que os novos recursos entram na economia, as distorções e problemas se iniciam. Os primeiros a receber o “novo” dinheiro (geralmente os bancos, as grandes indústrias ou grandes empresas) serão beneficiados a curto prazo: eles poderão consumir bens e serviços com um poder de compra – artificialmente – maior. Em outras palavras, esse consumo gera uma demanda que não tem respaldo pelo aumento de produtividade. O resultado disso é a criação de uma disfunção na curva de oferta e demanda.

Com o tempo, todos os preços da economia aumentam. Os últimos a receberem esta injeção de liquidez – normalmente os trabalhadores de baixa renda – perderão poder de compra. Dessa forma, imprimir dinheiro é uma política monetária que aumenta a inflação e que distorce os preços da economia. Em resumo, apesar de haver mais notas de dinheiro circulando, elas não criam riqueza verdadeiramente.

Quantitative easing

Esse instrumento monetário consiste na criação eletrônica de dinheiro pelo banco central, que compra títulos de dívida e valores mobiliários (ações). Para isso, a autoridade monetária credita o valor na conta das corretoras ou bancos, retirando da economia os ativos deteriorados e salvando empresas e instituições financeiras escolhidas pelo governo.

Por ser aplicável quase instantaneamente, o instrumento ganhou forte adesão nos últimos anos, geralmente em momentos de desaceleração ou de crise. Ele foi implementado durante as recessões de 2008 e, mais recentemente, o Banco Central Europeu e o FED usaram-na para aquecer (ou tentar aquecer) a economia e aumentar o consumo.

Ele não provoca uma elevação do índice de preços ao consumidor, mas gera um efeito inflacionário nos ativos financeiros. As mais beneficiadas são as grandes empresas e corporações. No entanto, a consequência imediata desta política é o aumento do endividamento do Estado, que obviamente passa a conta aos cidadãos. Sendo assim, os QEs são um instrumento de transferência de renda – dos mais pobres aos mais ricos.

Taxas de juros

Outro meio muito usado para aquecer as economias é a manipulação das taxas de juro. O juro é remuneração do credor pelo uso de seu dinheiro por parte de um devedor durante um período determinado. Pode ser entendido também como o preço pago pela preferência temporal e pelo risco assumido pelo agente que concedeu seu capital. Para facilitar a explicação, vamos classificar o juro como o “preço do dinheiro”.

Em sua obra, Mises explica que todo cálculo econômico que possibilita a alocação eficiente de recursos e leva os indivíduos a tomarem as decisões corretas no mercado, é feito pela transmissão de informações, que ocorre pelo sistema de preços. Se um produto está com o preço elevado, os indivíduos recebem a informação de que há mais pessoas demandando este bem do que há oferta disponível. O preço do dinheiro é um reflexo da oferta e do risco do mesmo. Quando a taxa de juros está muito alta, isso significa que existe pouca poupança real (dinheiro que os indivíduos possuem guardado e que está em posse da instituição financeira) em relação à demanda por empréstimos. Em outras palavras, existe um risco relativamente grande para o credor. Quando a taxa de juros está baixa, significa que existe uma grande oferta de dinheiro para uma demanda menor.

Nas últimas semanas, o FED anunciou diversas vezes seus planos para injetar liquidez e “aquecer” a economia dos EUA. Em 23 de março, ele anunciou a recompra de títulos americanos, prometendo cobrir todos os estragos deixados pelas recentes desvalorizações, se tornando dono de grande parte dos ativos do país, há poucos passos da estatização do sistema. Apesar da injeção de U$ 1,5 trilhão na economia, a medida não foi recebida com otimismo e os investidores recuaram em suas decisões. Mesmo assim, o FED “chutou o balde” e prometeu liquidez quase ilimitada: os analistas calculam que a injeção de dinheiro prometida pode chegar a US$ 6 trilhões, o que equivale a aproximadamente 4 vezes o PIB do Brasil. Esse valor é muito superior ao alocado na crise de 2008. O Banco Central Europeu não ficou para trás e anunciou um pacote de 750 bilhões de euros. Enquanto isso, os governos de países como França e Alemanha buscam mais formas de aumentar sua base monetária. No Japão, o Banco Central prometeu prover liquidez suficiente ao mercado, estimando um custo fiscal de mais de 112 bilhões de dólares. Obviamente isso irá custar muito caro aos cofres do governo. Na verdade, custará muito ao bolso dos trabalhadores e empreendedores.

Cedo ou tarde, o preço do esbanjamento de dinheiro público e das manipulações do mercado de crédito será cobrado. O mercado tende a se ajustar, quanto mais isso for adiado, maiores serão as perdas e prejuízos. Por isso é necessário entendermos como funcionam os ciclos da economia e quais medidas realmente podem ajudar a mitigar os efeitos de uma iminente crise.

Por hora, podemos afirmar que todas as formas de intervenção macroeconômica implementadas pelos governos surgem da ideia de que o Estado pode prover recursos e a riqueza para os indivíduos. Essa ideia está profundamente errada: o Estado atua como parasita da atividade econômica e sua fonte recursos é a receita do trabalho e do dinheiro dos indivíduos (empregados e empreendedores), que realizam trocas e associações voluntárias buscando sempre a autossatisfação.

A criação “mágica” de dinheiro tem origem no pensamento de que o simples acúmulo de moeda (e consequente aumento da demanda) é a base para o enriquecimento da sociedade. Porém, antes do consumo, deve existir a produção e ela deve se basear em informações e preços reais, a fim de que os indivíduos possam interagir de acordo com suas necessidades e desejos.

Derick Azevedo

É um jovem camponovense, de 19 anos de idade que está na 2ª fase do curso de Economia, na Universidade Federal de Santa Maria e coordenador de comunicação do Clube Farroupilha. Ele dedica parte de seu tempo para se aperfeiçoar na área que escolheu. Seu artigo está publicado na íntegra no site do Clube Farroupilha,  uma associação que nasceu de estudantes de direito e economia, eleito por 3 vezes seguida o melhor clube liberal do Brasil e no início de 2019 ganhou o prêmio “Clube do Ano” pela Students for Liberty International, e  que não está ligado diretamente às Universidades. O objetivo do Clube Farroupilha é defender a liberdade e mostrar a ineficácia das políticas sociais e econômicas estatizantes e apontar soluções para um país mais próspero e livre.  

Leia na íntegra a Parte I do artigo

Coronavírus: Das Intervenções Estatais à Crise Econômica

Derick Azevedo

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