Black or White

Por Arthur Otto Niebuhr, servidor da Justiça Eleitoral  

Por Redação em Vozes

29/06/2020 09:56

Confesso que ainda estou horrorizado com as cenas do policial ianque ajoelhado sobre o pescoço de George Floyd. Ao seu lado, um outro policial, também branco, indeciso. Uma menina filma tudo e hoje está em local incerto. George apenas suspira: “não consigo respirar”.

O nosso primeiro instinto é pensar que se trata de um ato policial isolado, cometido por uma polícia altamente violenta. Pensamos isso simplesmente porque a nossa mente, a qual foi formatada nos bancos escolares com a noção de direitos humanos e de democracia racial, não consegue entender tamanha brutalidade. Ao descartarmos tal hipótese, passamos a pensar que se trata de uma realidade norte-americana, dentro de um país profundamente marcado pelos conflitos raciais, no qual o Mississipi já esteve em chamas e onde Malcolm X e Luther King foram assassinados. Um pouco mais aceitável para os nossos padrões morais.

Mas a grande e dolorida verdade, a qual sangra e mancha as nossas consciências, é que ainda vivemos sob um “racismo estrutural”. E ele não está circunscrito aos Estados Unidos, à África do Sul ou a qualquer país. Pelo contrário: perpassa a formação antropológica de todos os povos contemporâneos, de uma forma terrivelmente perene.

No Brasil, a construção do racismo evoluiu da mesma forma como foram sedimentados os demais valores: de forma cínica e hipócrita. Inicialmente, realizou-se a escravização dos indígenas (os autênticos “nativos”), construindo-se para tanto o mito do “bom silvícola”, ou seja, um povo ingênuo e gentil, mas desacompanhado de alma e incapaz de distinguir o bem e o mal.

Depois da quase completa exterminação dos índios, teve início o tráfico e a escravização de negros africanos. Como se tratava de algo muito mais cruel e de difícil assimilação social, a sua construção teórica foi muito mais elaborada. A ausência de alma continuou a ser alegada, mas veio acompanhada de uma teoria muito mais corrosiva e convincente: o mito da feliz convivência entre senhores e escravos. Segundo este mito, a escravidão era tratada como um costume de época e, ainda assim, não impediu o convívio harmonioso entre os senhores brancos e os escravos negros. Isso possibilitou, entre outras coisas, que os senhores brancos fizessem o favor de “emprenhar” as escravas, bem como que as senhoras brancas aprendessem alguns “inusitados hábitos culinários” com suas empregadas negrinhas. Para que tal ordem social funcionasse, entretanto, era exigida uma condição: os senhores permaneciam nas casas grandes e os escravos, nas senzalas.

Pois, alguns séculos e uma Lei Áurea depois, o quadro permanece inalterado. Jamais tratamos psicanaliticamente os nossos problemas com a escravidão, nem tampouco com os crimes da ditadura militar, por exemplo. Emprestamos um ar de “falsa normalidade” à nossa cultura racial, perpetuando a hipocrisia e o preconceito.

Nós, os brancos, continuamos ocupando os melhores lugares nas universidades e nas óperas, afinal nossos antepassados roubaram as melhores terras dos indígenas; fizemos ainda o favor de estabelecer a “política de cotas” para as universidades, mas tudo depende de como os negros vão se comportar. Já os negros continuam sendo os nossos criados e vivem felizes nas suas senzalas (hoje chamadas de favelas), matando e drogando a si próprios; possuem o futebol e o carnaval, como escape aos seus desejos primevos.

Tenho uma filha e alguns amigos negros. Sei muito bem como funciona a nossa democracia racial. A cada escola particular, uma explicação sobre a família de origem. A cada condomínio de luxo, a necessidade de provar que não precisam usar o elevador de serviço. Afinal, lugar de negro é na senzala. No nosso atual estágio, precisamos sobreviver ao fascismo. Mas, quando voltar a democracia ao Brasil, que seja uma realidade para todas as etnias, todos os gêneros e todas as matizes. Caso contrário, quilombolas e capitães do mato lutarão e atrapalharão o sono das baronesas. 

 

 

                          

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Arthur Otto Niebuhr é servidor da Justiça Eleitoral  

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