Autismo e Comunicação

A validação dos ganhos sociais da linguagem ocorre fora do atendimento terapêutico ou institucional

Por Redação em Vozes

24/04/2020 16:55

"Os autistas verbais podem apresentar dificuldades no desenvolvimento e uso funcional da linguagem"

O diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), conforme o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) diz respeito aos distúrbios de desenvolvimento caracterizados por início precoce e curso crônico, afetando principalmente as habilidades na comunicação social, bem como padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses e atividades.

A apresentação desses quadros é muito variável e impacta em maior ou menor grau as áreas do desenvolvimento, tais como a comunicação, o aprendizado, a socialização além das adaptações de vida diária. As dificuldades na comunicação, nosso foco neste artigo, envolvem as habilidades tanto verbais - a fala propriamente dita, quanto as não-verbais: contato visual, gestos, expressões faciais e corporais.

Há autistas que não desenvolvem repertórios vocais: o autista não-verbal. Estatísticas dão conta de que um terço de pessoas com TEA são não-verbais, ou seja, não usam a fala para se comunicar. Nestes casos, a Comunicação Alternativa, uso de PECs e manejo adequado ajudam de maneira significativa estas pessoas. Na AMA Campos Novos, o uso do Programa Teacch, do PAD - embasado no ABA, a utilização de cartões, estratégias de manejo e estruturação de rotina são utilizados para organizar o aluno e orientar as famílias para melhorar a comunicação e a qualidade de vida desses indivíduos.

Quando falamos em desenvolvimento da comunicação devemos levar em consideração que há dois precursores importantes que aparecem nas crianças neurotípicas, aquelas que estão fora do espectro, e que não aparecem nas crianças com Autismo, que são: a intenção comunicativa (o desejo de comunicar algo) e a capacidade simbólica (uso da imaginação que possibilita o fazer de conta).

Para que esses pré-requisitos se desenvolvam e a criança tenha mais possibilidade de desenvolver a fala ela precisa ter contato visual, atenção compartilhada - fazer junto, acompanhar o que o outro faz ou está mostrando - e imitação, justamente o que é mais difícil para o indivíduo que está dentro do TEA e que deverão ser trabalhados como requisitos básicos para promover o desenvolvimento da comunicação verbal.

Os autistas verbais, ou seja, os falantes, podem apresentar dificuldades no desenvolvimento e uso funcional da linguagem. Alguns "sinais" ou "características" que podem ser observados: atraso no desenvolvimento da fala em relação a idade esperada; ecolalia (repetição de palavras e/ ou frases ouvidas anteriormente); alteração da entonação da fala, podendo apresentar fala monótona; ausência ou não de sustentação do contato visual; podem não responder ao serem chamados pelo nome; usa o adulto como meio de obtenção de objetos (pega a mão do adulto para levar ao que quer); discurso pobre, limitado e pouco interativo; dificuldade com a linguagem figurada, não entendem piadas, sarcasmos; dificuldade em iniciar/manter diálogo e de adequar sua fala ao outro; não se referir a si mesmo de forma correta (por exemplo, dizer "você quer água" quando a criança quer dizer "eu quero água"); dificuldades no uso de aspectos extralinguísticos como: desvia ou evita o olhar, não aponta, não usa gestos na interação, pode apresentar expressão facial rígida, entre outros.

Mas como já disse, o TEA é muito complexo, já se define como Espectro por se tratar de uma gama muito ampla e variável de sintomas tornando cada caso único, individual. Na AMA trabalhamos com duas demandas: aqueles que precisam ser encaminhados para o diagnóstico médico e aqueles que já vêm encaminhados pelo médico para atendimento na instituição.

A perspectiva de desenvolvimento do quadro em geral e, da linguagem especificamente, vai depender do nível de gravidade do TEA; das comorbidades isto é, das outras patologias que podem estar associadas ao quadro; da precocidade dos tratamentos - quanto mais cedo melhores resultados; do envolvimento e compromisso familiar e da qualidade da inclusão escolar e social oferecida ao Autista.

É importante ressaltar que a validação dos ganhos sociais da linguagem verbal e não verbal ocorre fora do atendimento terapêutico e/ou institucional – é no uso que faz nas atividades rotineiras familiares, nas atividades funcionais no grupo social que frequenta onde a criança e o adolescente com TEA aumentam os ganhos, generalizam e ampliam o repertório de habilidades comunicativas e sociais que são trabalhados nos atendimentos.

Para finalizar, algumas dicas de como estimular a comunicação e a linguagem no TEA:

- Fique na altura da criança ao interagir, de frente, direcionando o contato visual;

- Use palavras simples, de uso prático;

- Dê comandos simples, uma coisa de cada vez;

- Estimule que imite sons, onomatopéias e que identifique sons que você emite;

- Reforce/elogie qualquer tentativa de comunicação; faça "um gancho" com a emissão vocal dela procurando aproximar de algo que tenha significado;

- Converse com a criança; nomear, cantarolar no banho, no passeio... estando atento para ver se ela está te acompanhando, direcione seu contato visual, dê um toque para ele compartilhar com você a fala;

- Use o que ela gosta para brincar ou se aproximar dela. Brincadeiras simples de bola, de sopro, de músicas são ótimas para estimular o contato visual, a atenção compartilhada e habilidades sociais, aqueles comportamentos básicos que falamos;

- Imite o sorriso, sons e expressões faciais da criança. Alterne com ela! Muito bom para o treino de gestos sociais, treino de motricidade oro-facial e corporal;

- Use fotos, figuras, vídeos. Fazer um quadro de rotina diária organiza visualmente o dia da criança, facilitando sua compreensão;

- Quando a criança já estiver falando, treinar o uso de frases simples de forma estruturada e funcional;

- Antes de oferecer um objeto, refeição, pergunte o que deseja, aguarde a resposta... Pode demorar mas, se ela emitir algo, valorize, elogie e alcance o que ela pediu marcando o que ela quis dizer;

- Use entonações diferentes, ritmos diferentes: falar longo, mais silabado, cantarolado, para chamar a atenção da criança;

- Gestos podem e devem ser usados junto com a fala assertiva, curta e estruturada com sentido;

- Diante da ecolalia, repetição de frases, falas, busque compreender a intenção comunicativa relacionada à ecolalia e atribua significado a ela;

Lembre-se: quanto antes for diagnosticado e iniciar o tratamento maiores serão as chances de sucesso!

 Vanderléa Scapini, - Fonoaudióloga, integrante da equipe da AMA Campos Novos

Mês de Concientização do Autismo 

Autismo e Comunicação

Vanderléa Scapini, fonoaudióloga

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