Aldeia Global

Por Arthur Otto Niebuhr, servidor público na Justiça Eleitoral

Por Redação em Vozes

17/08/2020 11:12

 

Ainda me lembro daquela sexta-feira em que o Brasil parou, para assistir o último capítulo da novela “Vale Tudo” e descobrir quem havia matado Odete Reutmann. Na minha memória, talvez tenha sido o último grande momento nacional da TV brasileira, diante da derrocada do futebol e do desaparecimento das granes estrelas.

Cazuza já havia previsto, inclusive na música-tema da novela, que o nosso futuro seria “ver TV a cores na taba de um índio, programada para só dizer sim”. De fato, isso ocorreu e, enfim, nos tornamos uma grande aldeia global (com o perdão do trocadilho).

Ocorre que, assim como nos demais aspectos da vida humana, a distopia chegou antes da utopia. Em primeiro lugar, porque os eventos ganharam uma velocidade e uma dimensão tão grandes que não puderam mais ser organizados ou planejados pelas mentes midiáticas; agora já não falamos em aparelhos de TV nem tampouco em computadores, mas em pequenos smartphones que cabem no seu bolso e lhe conectam com o universo. E isso muda tudo. Você escolhe o que e quando quer assistir.

Em segundo lugar, a tão propalada “democratização da informação” deparou-se com o mesmo obstáculo que tem impedido os avanços sociais realmente importantes: o poder econômico. Em parte, a previsão dos analistas de que não teríamos os grandes canais de TV nacionais se concretizou, diante da popularização dos “canais por assinatura” e, mais atualmente, dos streams. Ocorre que, se lançarmos um olhar mais atento para esse mercado, veremos que os principais proprietários dos veículos de comunicação alternativos são os mesmos proprietários originais dos canais abertos. Ou seja: quem nasceu para Châteaubriant ou Marinho consegue se adaptar ao mercado, mesmo que os ventos mudem.

Contudo, a mais grave das consequências talvez tenha sido o vasto mundo “www”. Tudo começou muito bem, com a cessão de espaços para os “menestréis indesejados” produzirem as suas obras, desde o bipolar Lobão até talentos como Monica Salmaso ou Tulipa Ruiz. Porém, as paixões ideológicas, de 2013 em diante, tornaram-se caóticas, dando margem aos mais degradantes e repulsivos discursos de ódio. O natural anonimato e a falta de regulamentação da internet chamaram logo a atenção dessa legião de pessoas mal-amadas. Hoje, a violência e a desinformação são as principais ferramentas no combate aos livres pensadores.

Por óbvio, tais desvios não invalidam as inúmeras vantagens que a tecnologia nos proporciona, tais como o ensino à distância ou as vídeo-chamadas. A questão central, parece-me, é não perdermos a humanidade e a alteridade em meio a esse processo.

Sempre surge uma grande questão no ar: nos dias de hoje, haveria cenário para o país todo ficar hipnotizado diante de uma novela? Eu respondo com as armas que tenho: a arte, as boas histórias e os grandes intérpretes sempre nos fascinarão. E isso me dá oxigênio.

Aldeia Global

Arthur Otto Niebuhr é servidor público, trabalha na 7ª Zona Eleitoral de Campos Novos

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