A Geração Pan

Por Arthur Otto Niebuhr, servidor da Justiça Eleitoral de Campos Novos

Por Redação em Vozes

02/06/2020 00:09

"No início dos anos 2000, surgiu o primeiro baque no nosso estilo de vida"

Desde a minha juventude, tomei consciência de que estava participando de uma geração diferenciada, marcada por profundas transformações. Filhos dos “anos de chumbo”, herança de pais que não puderam se expressar, começamos a nossa “vida madura” em plena redemocratização. Surgiu o Rock in Rio de 1985, muita liberdade e extravagância. Mas também tivemos que lidar com a AIDS no seu início e com o seu efeito profundamente devastador para as relações. Aprendemos o que é neoliberalismo, impeachment, geração Dunga e outras coisas.

No início dos anos 2000, surgiu o primeiro baque no nosso estilo de vida. Originalmente um projeto do Exército norte-americano, uma tal de internet passou a dominar o nosso cotidiano. Subitamente, passamos a nos conectar com os mais remotos recantos do planeta, através de uma rede de computadores (exceção ao Irã, à Coréia do Norte e a alguns “puristas anti-stablishment”). No início, acessos difíceis via telefone, mas logo surgiram a banda larga, o smartphone, o wi-fi e agora eu só aperto um botão e ligo tudo. Não há mais barreiras, a informação é instantânea, ao toque de um dedo. Claro que existem os efeitos colaterais, como Mark Zukemberg e as fakenews, mas o mundo mudou completamente.

Considerando que o Brasil se transformou principalmente em função das questões políticas, eis aí mais um desafio que tivemos que enfrentar. Após a derrubada das “diretas já”, elegemos o nosso primeiro Presidente em 1989. De lá para cá, vimos um ex-metalúrgico ganhar a Presidência, alcançar uma popularidade estratosférica e cair em desgraça. Foram anos de abertura, crescimento econômico e aparente diminuição das desigualdades. Numa virada inédita, após algumas tempestades, o povo elegeu um ex-capitão do Exército, saído do baixíssimo clero do Congresso Nacional. Tempos de polarização total.

Ufa... Se terminasse por aí, a história da nossa geração já seria suficientemente recheada de emoções. Mas não parou. Como somos marcados pelo ineditismo, estamos lidando, há algumas semanas, com uma pandemia mundial de uma espécie nova de doença viral. Trata-se de uma situação tão nova, que nem me arrisco a dizer se estamos enfrentando exatamente uma gripe. Apenas sei que é um vírus violento e mortal, aparentemente surgido na China e que parou o mundo.

Enquanto escrevo este texto, estou vivenciando também uma experiência única: há quase duas semanas, eu e minha família estamos em quarentena, que foi uma estratégia utilizada para impedir a circulação do vírus. Algo totalmente novo para a minha geração, mesmo porque não sabemos como viviam as pessoas durante a gripe espanhola ou a peste negra. Lá fora, muitos morrem, principalmente os idosos. Não sabemos quando isso irá terminar, nem de que forma. Num estado absoluto de polarização, os brasileiros se dividem em dois grupos: a) as pessoas cautelosas que querem cuidar de si e de sua família; b) os fanáticos que acham que a ciência deve ser ignorada.

Quando você ler esse artigo, não sei se ainda estarei por aqui. Espero que sim. Quero dizer que foi uma loucura viver nessa geração, mas foi muito bom também. Espero que a próxima geração tenha mais sabedoria e menos extremismo. E que o mundo continue dando risadas.

A Geração Pan

Arthur Otto Niebuhr

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